terça-feira, 23 de março de 2010

Silas da Fonseca


MARCELA

Marcela, Marcela....
Vi quando ela desceu
a rua Pedro II
que, no momento,
me pareceu
o paraíso do mundo,
tal era o encantamento
da menina.
Flor do universo!
Linda, como o mais lindo verso
de Cora  Coralina
Eu a cumprimentei
mas sinceramente nem sei
se ela respondeu ou não.
Perdi o sentido
perdi  a audição
e de tão perdido
era só coração.

O LOBISOMEM DE SABARÁ

Dizem que foi 
no caminho de Boi
que morou João.
Um homem normal
que não fazia mal
a nenhum cidadão

Embora pacato
 de nenhum desacato
 o João parecia
que andava cismado
com algo de errado
que lhe acontecia

Se alguém perguntava,
João só resmungava:
 _ Num é nada não!
Mas se aborrecia
e logo logo  fugia
pro seu barracão

Mas como é sabido
nada fica escondido
entre o céu e o chão
E a uma donzela
o destino revela
o segredo de João.

Numa sexta-feira,
a lua inteira
passeava no céu
e subia a donzela
Por estreita ruela
quando o fato se deu.

Numa curva da rua,
na claridade da lua
ela encontrou com João
Ele babava e rugia
enquanto pelos cobriam
seu rosto, braços e mãos

A donzela bem que queria,
porém, não conseguia
sair daquele lugar
E sem querer via o homem
aos poucos virar lobisomem
em cenas de arrepiar

Ali do meio da rua
o bicho uivava pra lua
maldizendo a sua sina
Depois se emudeceu
e logo desapareceu
sem molestar a menina

No outro dia bem cedo
 já todos sabiam o segredo
 que aborrecia o João
Mas seu corpo fora encontrado
 com dois tiros alvejados
 em cima do seu coração.


  SÓ PRA REMÉDIO


Não adianta o assédio.
Cachaça? Eu?
Só se fô pra remédio!
Ninguém qué sofrê,
evidentemente.
Daí, não custa beber umazinha

pra desanimar a dor de dente.
Mais tem dor que vai doendo, doendo...
e o jeito é ir bebendo, bebendo...
Veja a dor da solidão!
Tem gente que acha graça,
mas eu digo sem temô:
remédio mió que cachaça
num existe não senhor.
E a dosagem é o de menos.
o sinhô bebe mais ou menos
conforme o tamanho da dor.
E papo de muié ciumenta?
Se num beber uma ou duas
Num tem Cristão  que aguenta.
E quando a gente "tá na fossa"?
nem adianta num querê.
A garganta da gente coça
.E nem carece de sê
pinga boa, da roça...
o negócio é bebê
ou aquela dor nos destroça.
Tenho um amigo que aposta
que foi a pura cachaça
que curou a sua prósta.
E foi só a turma escutar
- veja que povo criativo -
trataro  logo de iniciar
um tratamento preventivo.
E eu pergunto a a quem quisé respondê::
Não lhe parece educativo
este modo de beber?
Conheço também uma senhora
que só bebe em casa
à hora do jantar,
geralmente à zero hora,
quando chega de algum bar.
E assim cada um escoe
a meió forma de se tratá.
Tem gente qua a mistura
junto com otros elemento.
Otros a prefere pura
pra acelerar o tratamento.
E se for cachaça de Sabará,
num tem contra indicação.
Adoeceu, bebeu,  tá são.



OBRIGADO SENHOR, OBRIGADO SENHOR...

Acordei!
Uma sabiá me chamava
do caminha para a cachoeira.
Levantei-me!
Pairava no ar um cheiro suave
de jacarandá, peroba, aroeira.
jatobá, quaresmeira, limhático...
dezenas de aves de diferente canto 
davam um toque de encanto
àquele momento fantástico.
Abri a porta, saí!
de uma galha torta
fui anunciado:
_Bem-te-vi, bem-te-vi!
A sabiá, avisada,
voltou a insistir.
_ Por aqui, senhor, por aqui, senhor!
Não resisti.
Por entre flores 
de todas as cores
segui!
Adentrei pela mata
e pouco distante dali
avistei uma cascata.
Descrevê-la é impossível.
Sua beleza era indescritível.
Um casal de esquilos
namoravam ao som
de cigarras e grilos.
raios de sol
infiltravam por entre os galhos
e, num instante
iam transformando cascalho em diamante.
Percebi que quando homem e natureza
interagem
ambos se fundem numa única paisagem
que em todo o seu esplendor,
aproxima criatura e criador
pela linguagem silenciosa do amor.
Quando a sabiá voltou a cantar
_ Obrigado senhor, obrigado senhor...
resolvi retornar.
Uma sensação de calma invadira-me a alma.
decididamente,
eu era uma outra pessoa
diferente.
Que bom que não foi um sonho,
uma fantasia vã...
Mas um simples despertar
a cada manhã
em Sabará.
SENTIR PRAZER

Se você trepar,
chupar,
sentir prazer...
Pode crer:
A vida inteira,
jamais vai se esquecer
da jabuticabeira.

 


                                                                               Silas da Fonseca

Robergon


Cronologia

Roberto Gomes (Robergom), Sabará

Eis-me nas pedras dos becos e vielas.
Socado nas ruas, pingente nas ladeiras,
Misturado no adobe dos casarios senhoriais.

Eis-me no escuro, no canto, no resto.
Jogado à sorte dos dias sem cor
somado à massa dos anjos e zumbis.

Eis-me nas entranhas do Itaberaçu
dobrado à cata do vil e maldito
prostrado à ordem da ambição e vaidade.

Eis-me no estalo do chicote doente.
Agarrado num tronco, carapinha ao sol.
Plasmado no estertor da liberdade.

Eis-me leve, solto, cicatrizado.
Encantado numa hipócrita piedade.
Endeusado num falso arrependimento.



Gênesis

Roberto Gomes (Robergom), Sabará

No princípio era o nada.
E o nada se fez.
Surgiu uma névoa
que evoluindo-se
transformou-se numa massa
quase circular.

Então, a primeira onda.
E as coisas começaram a acontecer;
Terra e Água/Água e Terra.

A terra e sua exuberância:
Suas montanhas.
Suas riquezas.
Suas florestas
Sua fertilidade.
Sua fauna e flora.
Seus segredos e mistérios.
Terra, um montão de terra.
E a vida na terra:
Maravilhosa, alegre, brincalhona, imprevisível,
curiosa, divertida, inocente, feliz.

A água e seu espetáculo.
Azul, cristalina, esverdeada.
Cachoeiras e cascatas.
Quedas d’água com Arco-íris.
Riachos, ribeiros, córregos,
Rios, oceanos e mares.
Água do Céu.
Água da chuva.
Água.
Um montão de água.
E a vida na Água;
Maravilhosa, alegre, brincalhona, imprevisível, curiosa, divertida, inocente, feliz.

Então, a segunda onda.
Nasce o homem...
Antes maravilhado e passivo.
Agora, dono absoluto.

E a vida na Terra.
E a vida na Água:
Não mais maravilhosa, alegre, brincalhona; não mais imprevisível,
Curiosa, inocente; não mais divertida, não mais feliz.

A vida na terra e na Água
AGONIZA...



Sabará

Em tuas ruas caminha o encanto.
Nas pedras os passos da história.
E nos casarios, súbita memória
a se mostrar em cada beco, em cada canto.

E a fé a subir e a descer ladeiras.
Cânticos, ladainhas, exaltação.
O perfume dos ramos da louvação.
Os “ais” e suspiros das rezadeiras.

Sabará, dos heróis anônimos, valentes,
dos artistas, dos poetas, dos escritores,
do ora-pro-nóbis, da jabuticaba, das Praças.

Sabará, de um povo forte e consciente,
defensor fiel dos reais valores.
Celeiro maior de uma grande raça.

                    Robergom

 

Pedro Marzzagão



SAUDADE

Minha Terra está presente em mim, mesmo
quando distante.
O cheiro, a cor, os becos, ruelas, casarões
antigos, janelas imaginárias.
O murmúrio de palavras levadas ao vento.
O mel das recordações enraizadas no peito.
Os tantos abraços de despedida deixados em
copos vazios.
Retorno à minha Terra e como criança percorro
os mesmos caminhos, agora desertos, perseguindo
fantasmas incrustados nas paredes abandonadas.
Procuro o sentido dos objetos perdidos, das pessoas
perdidas, do manto negro lançado sobre os galhos da
árvore impedida de crescer.
Penetro no espelho do passado e junto os reflexos de
imagens inanimadas, das pessoas que partiram e
deixaram seus espíritos escondidos nas sombras das
noites misteriosas.
Na curva da Dona Maria do Posto, no Sobrado Velho,
na velha Serraria, nas Casinhas Novas, na Rua São
José, no Campinho, na Pinguela...
A Ponte, a porta da Fábrica, os encontros, a Igreja, o 
gramado bem cuidado, a Sede, o clarão, o escuro, o adormecer...
Verdes e imponentes eucaliptos, sombras em Bangalôs
plantados em linhas retas e obscuras.
Lagoas e riachos, caixas d’água e Usina, subida do
Cruzeiro.
Longe de ti  permaneço...
Junto a ti meu espírito...
Agarrada em ti minha existência...
Triste adormeço...e em meus sonhos
viajo no teu Ser!


FESTA DO SAGRADO 

Fantasmas ocultos esperando a hora
que o Sagrado percorra as calçadas
íngremes.
 Na fé do povo a esperança
caminha com o andor e provoca
lembranças
que ao som de uma Banda me faz
retornar ao meu corpo de menino.
 Um canto triste ecoa nas montanhas
traduzindo desejos, implorando liberdade.
Pedindo que a justiça seja plena e a mesa
seja farta.
Que a Terra deixe de ser destruída por
cabeças e mãos inconseqüentes.


CANTIGA DO ENCONTRO

Nascemos na mesma terra
Com sufoco e aflição
Hoje estamos separados
Força da situação
Mas quando nos encontramos
É maior a emoção
A amizade se renova
Bate forte o coração

Da terra herdamos muita
Humildade e afeição
Somos sempre solidários
A quem nos estende a mão
E se alguém nos aborrece
Agimos com paciência
Respondemos com sorriso
Não usamos de violência

Se sentamos num boteco
Para um belo cervejar
Logo o papo se dirige
Pr'aquele nosso lugar
E depois de muita cana
Concordamos em um ponto
Que apesar do pouco tempo
Como é bom o nosso encontro
 

BAGAGEM
 De minha terra trouxe raízes, alguns
traumas, tantas alegrias, muita saudade...
De minha terra trouxe a poesia que muito
mais tarde aflorou em meu peito, fazendo-me
cantar sentimentos até então trancafiados em
minha alma.
De minha terra trouxe amigos, assim como
muitos por lá deixei, enterrados nas sombras
das árvores, para florescerem (certamente)
em outras dimensões.
De minha terra trouxe muitas imagens, como
a do sol escalando a montanha do Cruzeiro,
embriagando-me pela imensa e gratificante
beleza daqueles fins de tarde.
Ah minha terra que tanta bagagem me empresta
nesta minha caminhada!...
E de tanto amá-la entranhei-me nela feito tatuagem.
Para perpetuá-la em mim tomei-lhe emprestado o
nome e dele fiz meu sobrenome de poeta.
Hoje assino, com orgulho, Marzzagão, dando-lhe
de presente mais um z.